O GRANDE FEDOR DE 1858 QUE QUASE INTOXICOU LONDRES

Em meados do século XIX, Londres era a capital do maior império do mundo e a mais imunda de toda a história. A relação do governo com a própria sujeira era apática, visto que parecia normal caminhar por ruas com mais de 1 mil toneladas de esterco deixado diariamente por aproximadamente 300 mil cavalos de comércio e uso pessoal. Quando tudo ficou um pouco cheio demais, os vitorianos passaram a empregar crianças entre 12 anos e 14 anos de idade para recolher os excrementos e ajudar na passagem dos cavalos.

Como se isso não fosse suficiente, a lama escura formada pelas fezes se transformava em um betume quando misturada com o ar carregado de fuligem em flocos. A cidade fedia a ovo podre, tabaco molhado, cerveja, graxa, frutas e legumes apodrecidos e poeira da estrada. Tudo isso era carregado pelo verão e ficava preso no ar invernal, com a densidade climática combinada com a falta de evasão causada pela poluição excessiva.

O maior centro financeiro e mercantil do mundo era infame. Em 1858, porém, a situação atingiu níveis alarmantes, quando as pessoas começaram a morrer com o que vinha da própria podridão.

A fossa do inferno

Na época, os esgotos eram túneis estreitos que pretendiam apenas evitar alagamentos na cidade, encaminhando a água para os rios Fleet e Walbrook, não servindo para a distribuição saudável da água suja. Resultado de uma sucessão de erros, acredita-se que isso tenha levado a um problema maior.

No início do século XIX, cada casa da cidade tinha uma fossa, localizada no jardim e usada para as necessidades fisiológicas. Havia apenas lama para absorver os resíduos fecais que caíam nos buracos de 6 metros de profundidade. Os ricos contratavam os intitulados “homens do solo” para fazerem a remoção dos dejetos durante à noite, uma vez que era ilegal abrir fossas durante o dia por conta do cheiro insuportável. Feito isso, eles vendiam os excrementos como fertilizante para os agricultores fora da cidade.

Quem morava no subúrbio simplesmente atirava as fezes em qualquer rio que desembocasse no Tâmisa, que para milhares de pessoas também servia como fonte de água potável. Ninguém tinha conhecimento suficiente para saber que as águas não se “renovariam” de um dia para o outro e levariam o lixo embora.

Com o tempo, o cheiro das fossas passou a transtornar as pessoas cada vez mais. Revelado na Grande Exposição de 1851, os londrinos inventaram o sistema de descarga e vaso sanitário (para quem tivesse dinheiro para adquirir) como forma de resolver o problema. A inovação marcou um avanço histórico na consciência sanitária, porém o problema apenas aumentou.

Com a descarga dos banheiros, os dejetos humanos fluíam para os esgotos, que não comportavam aquela quantidade de água e transbordavam por ruas e rios no caminho até o Tâmisa. O resultado disso veio em uma onda quente no verão de 1858, que trouxe a cólera e a febre tifoide pela água, adoecendo e matando a população. Pereceu apenas quem não pôde se dar ao luxo de fugir da cidade fedorenta.

A baixa do rio Tâmisa causada pelo calor fez boiarem todas as miudezas que lá foram descartadas ao longo de 100 anos. Além de esgoto, havia animais mortos, toneladas de ossos de matadouros, sobras de alimentos, tonéis de lixo industrial e até mobília. Tudo isso fermentando sob o calor do Sol.

A população recorreu a lenços perfumados e outras medidas ineficazes para tentar andar pelas ruas, que ficaram ainda mais sujas com o vômito dos cidadãos. O governo despejou 100 mil dólares em cloreto de cal no Tâmisa, para encobrir o fedor, mas a consequência foi o aumento exponencial no nível de toxicidade da água, pois a substância era venenosa.

A essa altura, as pessoas já enviavam cartas para jornais de outros países, implorando por uma intervenção: “Nós vivemos em uma pilha de fezes e sujeira. Nós não temos água limpa nem lixeira. A cólera vai nos matar de novo. Deus nos ajude”.

Respirando de novo

O Conselho Metropolitano de Obras sempre esteve ciente do problema dos esgotos, principalmente do custo que renderia aos cofres do governo, por isso durante anos preferiu apenas contorná-lo. Por trás de cortinas embebidas em cloreto de limão para bloquear o cheiro mortal, o Parlamento aprovou um projeto de lei em apenas 18 dias para custear a construção de um sofisticado sistema de esgotos que passaria por toda a cidade.

Joseph William Bazalgette foi quem encabeçou o projeto, que custou cerca de 240 milhões de dólares. O plano do engenheiro-chefe era aproveitar a topografia da cidade para construir um sistema subterrâneo com cerca de 131 quilômetros e 1.770 drenos, que pudessem interceptar as águas canalizadas e acompanhar o fluxo do rio Tâmisa, coletando todo o lixo ao longo das margens norte e sul. Visto que a cidade foi construída na encosta de um vale, uma região mais alta possibilitou a criação de um fluxo controlável para os esgotos.

Entre os cruzamentos das vias foram erguidas estações de tratamento de água. Para evitar alagamentos quando a correnteza do rio para a foz ficasse mais forte, comportas de cada rede seriam abertas, e a água suja seria lançada para fora do perímetro urbano. Eles ainda tiveram a chance de construir aterros ao longo do Tâmisa, gerando estreitamento do rio e recuperação de 22 acres de terra.

A nova rede de esgoto ficou pronta em 1878 e causou uma mudança radical no estilo de vida londrino, além de significar os primórdios do conceito de como funcionaria o planejamento urbano, que só foi instaurado por lei a partir disso.

Bazalgette salvou uma cidade inteira e causou uma revolução com a sua tese de que um município precisa ser estruturalmente planejado para poder crescer de fato.