Antes de virar Bruxa do 71, atriz de Chaves enfrentou fascistas na Espanha

Antes de se tornar o pesadelo das crianças do seriado Chaves (1973-1980) como a Bruxa do 71, a atriz Angelines Fernández (1922-1994) já habitava os sonhos ruins dos fascistas espanhóis. Durante a sua juventude, a intérprete da dona Clotilde fez parte de guerrilhas armadas que lutaram contra o ditador Francisco Franco (1892-1975) no país.

A artista tinha apenas 14 anos quando o general tomou o poder com o início da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Ela era descrita como uma jovem idealista e indignada com a pobreza que assolava o país –razões que a levariam a se juntar aos republicanos que formariam posteriormente a chamada Resistência Espanhola.

Durante toda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ela se dividia entre os palcos e sua luta secreta contra os nazifascistas no território espanhol. Aos 25 anos, porém, a artista caiu em desgraça ao ter sua atividade política clandestina ser descoberta.

“Por atuar nas guerrilhas espanholas, minha mãe foi tachada como antifranquista. Ela precisava sair da sua terra natal, visto que sua vida ficaria cada vez mais difícil”, contou sua filha, Paloma Fernández, em entrevista a um jornal mexicano em 1999.

Com a cabeça a prêmio, ela fugiu rumo a Cuba para não ser mais uma entre o meio milhão de espanhóis que morreram após o golpe de Franco. Depois de algumas novelas no país, ela recebeu o convite de Cantiflas (1911-1993) para se mudar para o México. O humorista, considerado o “Chaplin das Américas”, a transformou em um dos rostos mais conhecidos do cinema mexicano.

 feia mais bela

Eternizada pelo papel da vizinha feia e solteirona, Angeline foi sinônimo de beleza e elegância, que a alçaram a diversos papéis centrais nos folhetins água com açúcar que tornaram o país famoso em todo mundo –uma espécie de Sônia Braga da televisão mexicana.

O responsável por transformar a atriz em um “tribufu” foi ninguém menos do que Roberto Bolaños (1929-2014). O seu sucesso em Chaves foi tanto que fez os telespectadores esquecerem de seu passado nos filmes e nas novelas. Ela seria para sempre a Bruxa do 71.

O único ressentimento da intérprete, no entanto, era com o público infantil que morria de medo de aproximar por acreditar que ela realmente era uma feiticeira.

A eterna dona Clotilde nunca mais voltou à Espanha, apesar de ter visto a ditadura de Franco se desfazer em pó em 1975. Paloma explicaria posteriormente à imprensa que sua mãe tinha adotado o México como sua terra natal.