A aposta arriscada de Netanyahu

Envolvido em escândalos de corrupção, premiê prefere dissolver Parlamento e convocar novas eleições a dar a opositores a chance de formar governo

Noite de eleição, em 9 de abril, e Benjamin Netanyahu festejava, imbatível, excelentes perspectivas para iniciar o quarto mandato com maioria no Parlamento israelense. Porém, esgotado na quarta-feira o prazo para formar uma coalizão, seu partido, o Likud, levou o país a um cenário que parecia improvável sete semanas atrás: a dissolução do Parlamento e a convocação das segundas eleições em apenas um ano no país.

Netanyahu preferiu esta manobra arriscada a dar ao líder da oposição, Benny Gantz, do Azul e Branco, a chance de tentar formar governo. Dissolver o Knesset é, no entanto, uma aposta bastante arriscada para o premiê que está no comando de Israel há quase uma década.

Depois do fracasso nas negociações, ele se fragilizou para enfrentar uma nova campanha eleitoral. E ainda carrega nas costas três processos por corrupção, suborno e quebra de confiança, com a primeira audiência na Justiça marcada para outubro.

No centro desta coalizão que emperrou está o ex-ministro da Defesa e ex-chanceler Avigdor Lieberman, o líder do ultradireitista Ysrael Beitenu, que acumula um histórico de rivalidades com o primeiro-ministro. Seu partido ganhou cinco cadeiras no Parlamento — poucas, mas o suficiente para fazer das aspirações de Netanyahu um pesadelo.

Lieberman tem sua base eleitoral calcada nos imigrantes das ex-repúblicas soviéticas e se arvora como um secular convicto — agora também de olho também na cadeira do premiê. Recusa-se a compor com os partidos ultraortodoxos, de quem Netanyahu depende para sobreviver politicamente, para atenuar um projeto de lei permitindo o recrutamento de jovens religiosos às forças armadas.

O premiê culpou seu ex-ministro da Defesa por impor ao país uma nova eleição que custará US$ 130 milhões e ainda chamou Lieberman de esquerdista – grave insulto para o líder do partido ultranacionalista.

As divergências entre os dois têm antecedentes traumáticos para a base aliada. Em novembro passado, Lieberman renunciou ao ministério em protesto contra uma trégua com palestinos da Faixa de Gaza, acusando o governo de ser fraco na resposta ao Hamas. Um mês depois, Netanyahu dissolvia o Parlamento, após o colapso de sua coalizão pelo mesmo ponto de discórdia: o serviço militar para religiosos.

O problema é que agora Netanyahu se enfraqueceu. Mesmo que vença as eleições de 17 de setembro, não terá tempo suficiente para aprovar uma lei que assegure imunidade aos membros do Knesset, incluindo ele próprio, que a Suprema Corte considera inconstitucional.

Tampouco seu maior aliado externo, o presidente americano Donald Trump, conseguirá apresentar o tão prometido plano de paz para o Oriente Médio, anunciado como ambicioso, mas adiado duas vezes em função de convocação de eleições em Israel.

Às vésperas das eleições de abril, o premiê conseguiu de Trump o reconhecimento da soberania de Israel nas Colinas do Golã e ainda tirou outro coelho da cartola eleitoral: a anexação de assentamentos da Cisjordânia, em caso de vitória. Convenceu boa parte dos eleitores, mas não mais seus tradicionais aliados políticos.